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Artigo
Uma breve história da Ocarina
A ocarina é um instrumento musical de sopro muito antigo, com contato em diferentes culturas até os dias de hoje. Este artigo é um apanhado geral sobre a origem desse instrumento, sua evolução para a versão moderna e um pouco do seu papel na cultura popular.
Escrito por Maycon Lopes.
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O que é uma ocarina?
A ocarina é um instrumento musical de sopro que faz parte da família das flautas. Seu som nasce do ar vibrando dentro de uma câmara fechada, exatamente como funciona um ressonador de Helmholtz (é o mesmo princípio de soprar no gargalo de uma garrafa). Isso faz com que a ocarina seja uma flauta diferenciada, pois não depende do comprimento de um tubo para formar a altura das notas, tendo a capacidade de ser um instrumento musical compacto.
À primeira vista, a ocarina parece um instrumento musical simples. Na prática, ela reúne vários mundos ao mesmo tempo: arqueologia, cerâmica, acústica, artesanato e cultura pop. É um daqueles artefatos que atravessaram séculos sem perder a capacidade de surpreender. Para alguns, parece um simples brinquedo, para outros um instrumento completo, capaz de executar tanto peças de concerto quanto lembranças nostálgicas de músicas de videogame. E, em cada um desses contextos, continua reconhecível com seu timbre único.
Abaixo, o grupo de Ocarinistas Budriese no “Rooftop Concert in Shanghai”, executando a clássica “Tarantella Napoletana”.

Antes da ocarina moderna
A ideia de produzir som em uma câmara oca é muito antiga. Há instrumentos de sopro semelhantes em diferentes regiões do mundo, especialmente na China e nas Américas pré-colombianas. O Museu Metropolitano de Arte de Nova York, por exemplo, mantém registros de xun chineses e de ocarinas antigas das Américas, o que ajuda a mostrar que a família das flautas de vaso não nasceu em um único lugar.
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Fotos históricas de ocarinas antigas



Na China, o xun é um dos exemplos mais conhecidos desse universo. Ele é normalmente associado a formas ovais ou arredondadas e a um som grave e concentrado. Nas Américas, sobretudo em territórios hoje pertencentes ao México, à América Central e aos Andes, surgiram ao longo da história flautas de vaso em argila com formatos de animais, figuras humanas e formas geométricas. Muitas dessas peças tinham função cerimonial, lúdica ou simbólica, e não apenas musical.
Como podemos ver, a ocarina não apareceu como uma invenção isolada, pronta e acabada. Ela é o resultado de uma longa tradição de experimentação com barro, ar e forma, além de trocas interculturais: o que muda de uma cultura para outra é o modo de construir, decorar e usar o instrumento, não a lógica acústica básica.
A ocarina nas Américas pré-colombianas
Entre os exemplos mais fascinantes estão as ocarinas produzidas por culturas pré-colombianas nas Américas. Muitas delas eram pequenas esculturas sonoras, em formato de aves, de sapos, de animais míticos, de figuras humanas e representações de seres híbridos. Em alguns casos, o instrumento tinha dois, quatro ou mais furos; em outros, havia peças mais complexas, com várias câmaras ou mecanismos que permitiam efeitos sonoros específicos.
Esses instrumentos não eram necessariamente pensados segundo a lógica da música europeia que veio a surgir muito tempo depois. Em vez disso, podiam estar ligados a rituais, festas, práticas comunitárias, ao simbolismo religioso.
É importante ter em mente que muita coisa sobre essas culturas chega até nós por meio de achados arqueológicos, o que significa que parte da interpretação é sempre cuidadosa e indireta… mas é sabido que os povos das Américas produziram algumas das mais antigas e sofisticadas flautas de vaso conhecidas.
Giuseppe Donati e a forma moderna da ocarina
A ocarina como instrumento moderno, mais ou menos no formato que se conhece hoje e no sentido de uma família de instrumentos afinados para execução musical mais ampla, está ligada ao italiano Giuseppe Donati, de Budrio, perto de Bolonha. Muitas fontes históricas situam sua invenção por volta de 1853, quando ele ainda era muito jovem.

Ainda na sua juventude, Donati teria observado as pequenas flautas de barro que circulavam em feiras e usos populares e transformou aquele objeto em algo mais estável, mais afinado e mais adequado à performance musical. Seu trabalho não foi apenas o de “inventar um formato”; foi o de reorganizar um instrumento inteiro para que ele pudesse funcionar como linguagem musical.
A inovação de Donati teve alguns efeitos decisivos: (i) consolidou uma forma de ocarina que se tornou reconhecível até hoje; (ii) ajudou a sistematizar a digitação e a afinação; (iii) ampliou a ideia de tocar em grupo com instrumentos de tamanhos diferentes; (iv) tirou a ocarina do lugar exclusivo de curiosidade popular e a aproximou do palco.
Por isso Budrio, na Itália, ocupa um lugar central nessa história. A cidade virou referência de fabricação e de memória musical, em vez de ser apenas o lugar onde o instrumento moderno apareceu, Budrio passou a representar uma tradição inteira de construção, ensino e performance até os dias atuais.
O concerto de ocarinas
A partir de Donati, a ocarina ganhou uma dimensão coletiva, pois não era apenas um instrumento isolado, mas uma famílias de instrumentos afinados em registros diferentes, capazes de tocar juntos como um pequeno conjunto, conforme demonstrado no vídeo acima do grupo de Ocarinistas Budriese.
Penso que seja esse um dos principais motivos para a ocarina ter crescido na Europa do século XIX. O instrumento não era apenas exótico; ele também era prático, com timbre e projeção adequados e identidade sonora. Em ambientes de salão, em apresentações públicas, individuais ou em grupos organizados, a ocarina podia agora soar distinta, alegre e memorável.
Muitas fontes históricas sobre Budrio e sobre a tradição local mostram que a ocarina foi rapidamente associada tanto à curiosidade popular quanto à música organizada. E mais uma coisa: o desenvolvimento de conjuntos de ocarinas ajudou a criar repertório, o que ajuda a fixar a tradição. Penso que sem repertório próprio, um instrumento é como um objeto qualquer, que pode ser substituído por outro similar. Mas quando há um repertório específico para aquele instrumento, aí sim ele se torna um instrumento musical de verdade que tem sua própria identidade musical, não apenas cultural.
Artesanato, fabricação e evolução técnica
No século XIX e no início do século XX, a construção de ocarinas passou por grande refinamento. Em Budrio e em outros centros europeus, surgiram artesãos que melhoraram moldes, padronizaram medidas e buscaram maior estabilidade sonora, desenvolvendo assim uma produção em escala mais consistente.
Há registros históricos de fabricantes ligados à tradição italiana, como Cesare Vicinelli e outros nomes da escola emiliana, que ajudaram a consolidar a qualidade do instrumento. Ao mesmo tempo, a ocarina foi sendo reproduzida em diferentes materiais e formatos: terracota, cerâmica, madeira, metal e plástico.
Essa passagem é importante porque mostra uma diferença entre instrumento artesanal e instrumento de mercado. A ocarina sobreviveu aos dois mundos. Ela continuou sendo feita por artesãos cuidadosos, mas também foi adaptada para produção em maior escala, com materiais mais baratos e mais resistentes ao transporte.
No século XX, isso se intensificou. Há patentes históricas de ocarinas produzidas em plástico, como a patente US2145605A, da Waterbury Button Co., e há também patentes mais recentes que tratam de melhoria de qualidade sonora por meio de partições internas, como a US7799980B1. Essas patentes não significam que o instrumento ficou “mais verdadeiro”; significam apenas que ele continuou a ser objeto de pesquisa e “reinvenção”.
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Imagens do inventor Norman Spencer Register, autor da patente US7799980B1


A ocarina de 10 furos e outras digitações

Uma das formas mais conhecidas de ocarina no Ocidente contemporâneo é o modelo transversal de 10 furos, porém este não é o único modelo, nem necessariamente o melhor ou mais antigo.
A história do instrumento demonstra modelos de vários tamanhos e sistemas de digitação. Há ocarinas de 4, 6, 8, 10, 12 ou mais furos; há modelos in-line e transversais; há versões pedagógicas e versões de concerto. O número de furos, por si só, não define qualidade do instrumento, apenas revela uma escolha de projeto e/ou uma preferência pessoal.
A ocarina de 12 furos, muito associada ao Japão e a escolas modernas de execução, trouxe maior flexibilidade cromática e ajudou a ampliar o repertório disponível. Ao mesmo tempo, instrumentos menores, mais simples ou mais limitados em extensão continuam fazendo sentido em contextos educativos e populares.
O caso japonês e a expansão contemporânea
A presença da ocarina no Japão merece destaque porque foi ali que o instrumento ganhou nova vida no século XX. Em vez de ser apenas importado como curiosidade europeia, ele passou a ser adaptado, estudado e refinado em outro contexto cultural.
Uma figura importante nesse processo é escultor Takashi Aketagawa, frequentemente citado em discussões históricas sobre o desenvolvimento de ocarinas japonesas para o atual modelo de 12 furos. Com o passar do tempo, surgiram escolas de fabricação e execução que favoreceram maior controle de afinação, melhor resposta no agudo e sistemas mais ergonômicos de digitação.

O som da ocarina
Parte do fascínio da ocarina vem do seu timbre. Ela tem um som que pode soar doce, direto, quase vocal. Não é um instrumento de volume enorme, mas é muito expressivo. Em muitos registros, sua voz parece próxima da fala humana: simples, clara, com uma doçura que chama atenção rapidamente.
Do ponto de vista acústico, isso acontece porque a ocarina não depende tanto da coluna de ar de um tubo. O que vibra é a massa de ar na cavidade. Essa característica também explica um limite conhecido do instrumento: ele não se comporta como uma flauta transversal comum, que pode “quebrar” para registros superiores com técnicas de sobre-sopro do mesmo modo. Ou seja, não é possível “oitavar” as notas.
Isso não é defeito. É identidade. A ocarina tem uma lógica própria e, quando bem construída, pode ter uma pureza de timbre que a torna muito reconhecível.
Cultura pop e novo interesse pelo instrumento
No fim dos anos 1990, a ocarina ganhou um impulso cultural enorme com The Legend of Zelda: Ocarina of Time. O jogo não inventou o instrumento, mas o transformou em símbolo para uma geração inteira. Para muita gente, foi a primeira vez que a palavra “ocarina” apareceu de forma marcante.
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Ocarina de 12 furos, inspirada na ocarina do The Legend of Zelda: Ocarina of Time


Essa popularização causou importante efeito por dois motivos: primeiro, aumentou a curiosidade pelo instrumento, despertando novos apaixonados que se surpreenderam ao descobrir que o instrumento existe de verdade e não apenas no jogo. Segundo, trouxe para a ocarina uma imagem contemporânea, não apenas histórica, voltando a ser algo desejável para tocar, colecionar e aprender.
Depois disso, comunidades de músicos, artesãos e colecionadores passaram a circular o instrumento em vídeos, fóruns, lojas especializadas e gravações caseiras. A internet ajudou a ocarina a atravessar fronteiras que antes exigiam turnês, catálogos ou coleções de museu.
A ocarina hoje
Hoje a ocarina vive em mais de um mundo ao mesmo tempo. Ela aparece em aulas de música, em repertório folclórico, em performances solistas, em gravações de estúdio, em trilhas sonoras e em comunidades de entusiastas. Continua sendo um objeto artesanal, mas também uma peça de cultura global.
Talvez esse seja o traço mais bonito da sua história: a ocarina nunca precisou escolher entre ser antiga e ser atual. Ela conseguiu ser as duas coisas ao mesmo tempo.
Concluindo…
A história da ocarina não é linear nem simples. Ela começa em tradições antigas de flautas de vaso, ganha forma moderna na Itália do século XIX com Giuseppe Donati, recebe uma nova versão pelas mãos do japonês Takashi Aketagawa e se espalha por escolas de fabricação e execução em diferentes países, voltando a ganhar destaque mundial com a cultura pop do final do século XX.
É um instrumento pequeno, mas com uma trajetória enorme. E talvez seja justamente isso que a torna tão interessante.
Referências
- The Metropolitan Museum of Art - Xun
- The Metropolitan Museum of Art - Ocarina pré-colombiana
- The Metropolitan Museum of Art - Ocarina Guanacaste-Nicoya
- Peabody Museum - Ocarinas of the Americas
- Ocarina di Budrio - La storia
- Lombardia Beni Culturali - Ocarina, Donati, Giuseppe
- Google Patents - US2145605A, Ocarina
- Google Patents - US7799980B1, Ocarina com partições internas
- Aketagawa Museum